|
Cega, Surda, Muda e Débil Mental.
“Nasci a 22 de junho de 1880 em Tuscumbia - pequena cidade do norte
de Alabama”. Assim começa sua autobiografia, uma das mulheres mais
admiráveis dos últimos séculos: Hellen Keller.
Aos
dezoito meses de idade ficou repentinamente cega e surda durante uma
doença infecciosa.
“Meus primeiros dias de vida foram como os de toda criança: como
primogênita que fui, cheguei, vi e venci”.
Na
verdade, “Chegou, Viu e Venceu”, aquela mulher cega, surda, tida
como muda e como débil mental, antes de poder mostrar ao mundo sua
personalidade ímpar, sua inteligência de superdotada e seus
característicos de espírito evoluído.
Hellen Keller viveu encarcerada na mais estreita prisão que se pode
conceber - a sensorial - que lhe deveria causar completa
incomunicabilidade. Contudo, rompeu barreiras até então
intransponíveis, e abriu muitas portas aos excepcionais deficientes
sensoriais.
Mas, não foi só isso. Independentemente de suas deficiências
físicas, sua personalidade foi admirável. A respeito, disse Mark
Twain: “As duas figuras mais interessantes do século XIX foram
Napoleão e Hellen Keller”.
Aos
sete anos de idade, extremamente nervosa com sua infinita solidão,
tida como agressiva, difícil e retardada mental, começou uma fase
nova. “O dia mais memorável de minha vida foi aquele em que a
professora Ana Mansfield Sullivan, veio juntar-se a mim”.
Começou a descobrir, com a mestra dedicada, que as coisas tinham
nome, e que os pensamentos e sentimentos podiam ser escritos com
sinais. Entrou no horizonte da leitura e da escrita pelo processo
dos dedos na palma das mãos.
Daí
em diante a vida ficou “maravilhosa”.
“Luz! Luz! Era o grito incompreendido da minha alma. Nesse dia o
astro luminoso raiou para mim”.
Estudou, pesquisou com o tato, o gosto e o olfato, escreveu livros e
ensaios. Leu, no idioma original, entre outras, obras de Corneille,
Alfred de Musset, Molière, Goethe, Schiller e Milton. Aprendeu o
latim e o grego. Formou-se no Colégio Universitário de Radcliff aos
vinte e quatro anos de idade.
As
palavras dos mestres iam-lhe sendo rapidamente transmitidas pelas
mãos, através do alfabeto dos mudos, e seus exames eram feitos em
máquinas datilográficas comuns. Lia livros de letras gráficas em
relevo, ou os livros em Braille que eram poucos.
Ouvia a linguagem oral dos outros colocando suas mãos nos lábios ou
sobre as cordas vocálicas dos que falavam. E, por esse sistema,
iniciou a própria fala.
Durante o estudo universitário, essa jovem solitária pela ausencia
da visão e da audição, contudo dizia: - “A única coisa que me
desgosta é a falta de tempo para as minhas introspecções
espirituais”.
Fez
críticas de grande finura e sensibilidade sobre o ensino da época:
“O cérebro sobrecarregado não pode gozar as riquezas intelectuais
adquiridas a golpes de sacrifícios”.
Lendo a Ilíada, amou a Grécia.
Referiu-se à Bíblia dizendo: “Ela me deu a convicção de que as
coisas eternas são exatamente aquelas que escapam à percepção dos
sentidos”.
Aos vinte anos de idade escreveu sua obra mais famosa: “A História
de Minha Vida”.
Pouco mais que adolescente, essa mulher conta ao mundo a sua
magnífica experiência. Rememora, como raras pessoas puderam fazer,
algumas ocorrências, de seus primeiros meses de vida, até a
Universidade. Confronta o mundo interior ao mundo exterior, que pôde
captar, identificando ressonâncias e dissonâncias. Traz à tona
aspectos inéditos de vivência, e modelos de tenacidade, com a
espontaneidade dos simples e puros de coração.
Quem não leu sua autobiografia, traduzida para quase todos os
idiomas, perdeu alguma coisa que ninguém mais lhe pode dar.
Depois desse livro, Hellen não se preocupou mais em descrever-se.
Dedicou toda a sua vida ao bem, ajudando os inválidos e os
desesperados, não só diretamente, através de incontável
correspondência, como de conferências e trabalhos que promoveu em
favor dos deficientes.
Em
1896, no V Congresso da Associação pelo Ensino da Linguagem Oral aos
Surdos, fez uma impressionante palestra que terminava assim: “No
vencer as rudezas do caminho sentireis alegrias que não teríeis
nunca, fosse a estrada confortável, e pudésseis caminhar
direito...”.
Discutia-se sobre se o surdo deveria ou não ser introduzido na
linguagem oral. Então ela lhes disse: “Havemos de falar e havemos de
cantar porque Deus quer nossas palavras e nossos cantos”.
Seus resultados foram obtidos a golpes de energia e inteligência sem
par, diz um de seus comentadores.
Hellen costumava assistir a concertos musicais. Gostava
principalmente de solos de corda. Pousava suas mãos sobre o
instrumento e “ouvia” a música. Contam que, certa vez, viram-na
maravilhar-se quando tocaram o órgão de São Bartolomeu em sua
presença, embora estivesse isolada no meio do templo.
Tivemos a ventura de, pessoalmente, conhecê-la e ouvi-la falar.
Ainda era uma mulher muito bela, aparentando setenta e poucos anos.
Seus olhos sem óculos, azuis claros, um pouco esfumaçados, contudo
pareciam ter vida, e seu rosto agradável, emoldurado pelos cabelos
grisalhos cobertos por pequeno chapéu florido, era irradiante de
luz. Corpo esbelto, postura elegante, e gestos discretos, mas
flexíveis.
No
dia em que a conhecemos, Hellen, falava sobre a situação dos cegos,
surdos-mudos, chamando a isso “um dos pequenos problemas da
humanidade. Há outros muito mais graves”. Respondeu a perguntas, e
fez os ouvintes rirem descontraídos, com seu senso de humor e suas
respostas inesperadas. Nós, os do auditório, estávamos emocionados
mas não apiedados. Entusiasmados, embora um pouco apequenados.
Parecia-nos estar recebendo uma missionária de esfera superior, e de
um tempo futuro. Não falou em estilo religioso ou filosófico, em
alma, no bem ou em Deus, mas tudo isso parecia estar ali, dentro
dela.
É
claro que o timbre de sua voz era específico, um pouco mais agudo e
ritmado do que o dos falantes comuns. Ela aprendera a falar sem ter
ouvido qualquer som, nem ter visto ninguém e nada, para que pudesse
imitar.
Em
2 de junho de 1968, com a idade de oitenta e oito anos, Hellen
Keller desencarnou em Westport, Connecticut, depois de um pequeno
ataque cardíaco que a deixou de cama por uma semana.
Para os deficientes sensoriais do mundo, Hellen é um marco.
Para os estudiosos das potencialidades humanas, representa um rico
material de estudo; provavelmente, também para os simpatizantes da
teoria de percepção extra-sensorial.
Mas
outra coisa nela é ainda mais importante: A Vitória do espírito
sobre a matéria, e a mensagem transmitida integralmente.
André Luiz, através do médium Francisco Cândido Xavier, nos lembra
que muitos “Mensageiros” descem à Terra com tarefas específicas.
Prometem vencer, e todas as facilidades lhes são proporcionadas.
A
maioria regressa à Pátria Espiritual vencida, curvada pelos espinhos
do caminho, envergonhada pelos fracassos, frustrada pela mensagem
não transmitida.
A
pequena de Alabama começou a desenvolver sua mensagem, justamente
aos dezoito meses quando as mais importantes faculdades se trancaram
em seu corpo e fecharam-na por dentro.
O
espírito então despertou. A realidade interior venceu os obstáculos,
curvou, talvez, o próprio destino com a vontade criadora da filha de
Deus, e transmitiu a mensagem de esperança, a lição de ânimo, e a
confiança na vitória da tenacidade, quando a direção é o progresso,
e a meta é o Bem.
|