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A médium escocesa
Helen Duncan (1897-1956) esteve a serviço dos angustiados e
desiludidos que perdiam seus parentes durante a Segunda Guerra
Mundial.
Helen foi uma
trabalhadora de poucos recursos. Seu esposo Henry Duncan foi ferido
durante a Primeira Guerra Mundial e ficou incapacitado para o
trabalho. Dos doze filhos que o casal teve, apenas seis sobreviveram
às doenças e dificuldades normalmente encontradas por quem não
possui recursos para atender a necessidades básicas.
A escocesa atuava como
médium profissional, contudo, frequentemente usava os recursos
obtidos para auxiliar no atendimento aos doentes que não podiam
pagar pelo tratamento médico.
Realizando suas
sessões em igrejas espiritualistas, seu trabalho era intermediar o
contato entre os militares desencarnados em batalhas da Segunda
Guerra com os familiares ansiosos por notícias.
Porém, sua mediunidade
também apresentava outro recurso, e foi esta outra capacidade que a
colocou em confronto com autoridades militares e judiciais.
Em 1941, durante uma
reunião mediúnica, ela recebeu a informação que o Encouraçado HMS
Hood, pertencente à Marinha Real Inglesa, tinha sido afundado. O
afundamento realmente tinha ocorrido, mas a notícia ainda não tinha
chegado ao conhecimento do público. Dois anos depois ela anunciou o
afundamento de outro navio de guerra, desta vez foi o HMS Barham; a
Marinha somente anunciou tal ocorrência três meses depois.
A partir destes dois
acontecimentos sua vida mudou completamente.
Na noite de 19 de
janeiro de 1944, ela estava reunida em Portsmouth, no sul da
Inglaterra - é bom que se esclareça que aquela região era um alvo
constante dos bombardeiros alemães -, durante a sessão ela foi
interrompida por um policial que estava presente; ele tentou agarrar
uma materialização, mas não foi rápido o suficiente.
Como conseqüência, a
policia levou Helen e mais três assistentes e os prendeu sob a
acusação de vadiagem. Para tal denúncia bastaria ser paga uma multa
de três xelins para que fosse efetuada a liberação. Contudo,
recusaram a fiança e a encaminharam para Londres, e a encarceraram
por quatro dias na prisão feminina Halloway, para onde eram enviadas
mulheres acusadas de assassinato, espionagem e traição.
De forma inesperada a
acusação foi alterada de vadiagem para conspiração. Logo em seguida,
a enquadraram em uma antiga lei, a Witchcradt Act (Ato de
Feitiçaria), de 1735, criada no tempo da Inquisição.
Pelo que os
espiritualistas ingleses apuraram posteriormente, havia um grande
interesse em fazer crer que Helen fosse uma fraude. Além disso,
surgiu um rumor que sua prisão fora realizada para que ela não
revelasse a data em que os aliados pretendiam realizar do “Dia D”
(quando os aliados deflagraram uma ação conjunta para enfraquecer o
exército alemão e que teve sua origem no desembarque na Normandia,
França, em 06 de junho de 1944). A paranóia parecia ter alcançado
seu ápice; uma simples trabalhadora, dona de casa tornara-se uma
ameaça às potências militares?
Testemunhas surgiram em sua defesa de todas as partes da
Grã-Bretanha; elas contavam os fatos que evidenciavam não somente os
dons mediúnicos de Helen, mas sua predisposição em auxiliar na
consolação de parentes aflitos.
Entre elas se
apresentou o respeitado acadêmico e profundo conhecedor da obra de
Shakespeare, Alfred Dodd, que comprovou ter estado em uma reunião,
quando seu avô se materializou. Também o conhecido jornalista e
co-fundador da revista espiritualista “Psychic News” (Notícias
Psíquicas), Hannen Swaffer, esteve presente e rebateu as acusações
de que o ectoplasma oriundo da médium era feito de uma mistura
amanteigada. Outro que testemunhou em favor de Helen, foi o
jornalista e historiador inglês James Herries Beattie, que alegou
ter assistido a uma materialização de Arthur Conan Doyle, durante
uma reunião com a médium.
A defesa de Helen
Duncan sugeriu algo que colocou a acusação em uma difícil situação.
Realizariam uma sessão mediúnica perante a corte inglesa para provar
a veracidade das alegações da defesa. O tribunal não chegou a um
consenso e a sessão não se realizou.
No julgamento ela foi
enquadrada como praticante de feitiçaria e inocentada das outras
acusações; o juiz a condenou a nove meses na prisão Halloway. O
movimento espiritualista ficou chocado com a decisão, ainda mais
considerando que a lei em que foi baseada a decisão tinha mais de
duzentos anos. Ainda assim foi negada a possibilidade de apelação e
Helen foi encarcerada.
Relatos dão conta que
durante os meses de reclusão, a porta de sua cela nunca foi trancada
pelos guardas da prisão e sempre era franqueado o acesso a visitas.
Até mesmo o Primeiro
Ministro inglês Winston Churchill saiu em sua defesa, escrevendo uma
nota para o secretário do governo. No entanto, sua lógica apelativa
não encontrou aceitação e ela continuou presa.
Vale a pena
realizarmos uma pequena pausa para tratarmos acerca de um episódio
interessante envolvendo o Primeiro Ministro. O fato está contido em
sua autobiografia:
Durante a Guerra Bôer,
que ocorreu na África do Sul, entre 1899 a 1902, e que envolveu de
um lado os ingleses e de outro os africânderes, Winston era um
correspondente de guerra. Ele foi capturado e depois conseguiu
escapar. Utilizando método semelhante ao da “planchette”, ele
consultou Espíritos e ficou sabendo de uma casa a trinta milhas de
onde estava, na qual os moradores eram simpatizantes dos ingleses.
No local ele foi recebido e contou com a proteção até ser resgatado
pelo exército inglês; caso batesse em outra casa poderia ter sido
novamente aprisionado.
Por influência de
Churchill, o Witchcraft Act foi revogado em 1951, uma vitória para
os espíritas e os espiritualistas, que podiam exercer a Mediunidade
sem o temor da opressão.
Retornemos aos relatos
envolvendo Helen e seu martírio.
Sob juramento de não
mais realizar sessões mediúnicas, Helen foi solta em 22 de setembro
de 1944. Contudo, o apelo mediúnico foi muito forte e ela voltou às
atividades.
Todavia, a
intolerância ainda possuía profundas raízes. Em novembro de 1956, a
policia invadiu uma sessão na cidade de Nottingham. Agarraram a
médium e fizeram uma revista corporal, alegando procurarem máscaras
e barbas que evidenciassem uma fraude. A médium era Helen, que
estava em pleno trabalho de materialização, em profundo transe. No
início de sua Mediunidade os Espíritos orientadores tinham dito que
ela jamais poderia ser tocada enquanto a materialização estivesse em
andamento, sob pena de trazer danos irreparáveis. Helen Duncan
passou mal e foi levada para atendimento médico. O profissional
descobriu que ela estava com graves queimaduras no estomago. Ela foi
levada de volta para sua casa e depois hospitalizada. Cinco semanas
depois desencarnou em virtude das queimaduras.
Um busto de bronze
homenageia Helen Duncan em Callander, Escócia, sua cidade natal.
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