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Na
Doutrina Espírita atualmente são famosos os relatos sobre o modo de
vida no mundo espiritual. Já nos primeiros da Revue Spirite (Revista
Espírita), tal preocupação propiciou muitos registros descritivos em
suas esclarecedoras páginas.
Estamos sempre
recebendo informes sobre as várias regiões habitadas por distintos
níveis de consciência. Em todos os relatos fica claro que o
esclarecimento espiritual de cada individuo e o seu proceder
enquanto encarnado, é que determinará a região que lhe será
destinada a habitar enquanto permanecer na erraticidade., é assim
que se define a cota de perturbação ou de harmonia que cada um
experimentará na dimensão espiritual.
As referências sobre
estas questões já tinham sido aventadas por Andrew Jackson Davies,
Alphonse Cahagnet e nas obras de Allan Kardec. Agora vamos conhecer
um médium que tratou deste tema.
Em 1859, em
Birmingham, Inglaterra, reencarnou George Vale Owen (1869 – 1931).
George tornou-se um sacerdote aos vinte e quatro anos, após ser
educado no Instituto de Midland e no Queen´s College (Universidade
da Rainha). Passou então a servir sua Igreja Protestante, sempre
dedicado à verdade, e, por conta desta qualidade, pagou alto preço.
Rapidamente ele
demonstrou suas inclinações filosófico - cientificas, fato que o
distanciou de seus confrades, apegados a dogmas e rituais.
Em 1893, ele foi
nomeado para cumprir seu ministério no curato em Seaforth, uma
designação humilde, mas que ele executou com responsabilidade e
comprometimento. Depois foi Cura em Fairfield (1895), e em S.
Matheus (1897), ambos em Liverpool. Em 1908 foi servir na Igreja em
Oxford.
A necessária mudança
em sua trajetória de vida ocorreu em 1913. Naquele ano sua
mediunidade começou a dar os primeiros sinais, com a ajuda de sua
mãe que desencarnara em 1909.
Obviamente que George
teve que romper as barreiras pessoais para primeiramente aceitar,
depois acreditar, e, por fim, passar a divulgar as verdades sobre as
quais somente naquele instante ele tomara conhecimento.
Por meio da
psicografia ele recebeu inicialmente mensagens de sua mãe e de um
grupo de amigos desencarnados. Depois surgiu um outro Espírito que
se identificou pelo nome Astriel; este disse que fora diretor de uma
escola em Wrawich, em meados do século XVIII; ele juntou-se aos seus
antecessores e escreveu, por intermédio da mediunidade de George, o
livro “As Regiões Inferiores do Céu”.
Posteriormente ele
teve sua companhia espiritual alterada, Astriel, sua mãe e seus
amigos, deram lugar ao Espírito que se identificou como Zabdiel; por
orientação dele foi escrito “As Altas Regiões do Céu”.
A obra “O Ministério
do Céu” foi escrita pelo Espírito que se identificou apenas como
Leader (guia), juntamente com seu grupo.
Depois, Leader assumiu
o nome Arnel e escreveu “Os Batalhões do Céu”, obra de elevado cunho
moral.
Consta que George
jamais alterou, com o fito de adaptar ou tornar mais compreensível,
qualquer parte dos textos que foram escritos pelos Espíritos.
Para conhecimento do
leitor, reproduzimos abaixo parte do prefácio da primeira edição,
que retiramos do livro publicado no Brasil sob o nome “A Vida Além
do Véu”. Na realidade, esta obra é uma tradução de “As Regiões
Inferiores do Céu”. O trecho escolhido esclarece bastante sobre a
obra registrada pela Mediunidade de George Vale Owen:
“A narrativa
coloca-nos em face do Universo Espiritual, de inconcebível grandeza
e imensidade, e vai, de esfera em esfera, pelos reinos da luz, os
quais se desdobram pela amplidão do infinito”.
Diz-nos ela que
aqueles que partiram da vida terrena habitam as mais próximas
esferas do nosso globo e se vêm circundados de coisas não
inteiramente dessemelhantes às que conheceram no mundo; que
entramos, com a morte, no círculo mais apropriado ao nosso
desenvolvimento espiritual. Não há mudança repentina em nossa
personalidade. Não mergulhamos no esquecimento. Um ser não se
transforma em outro ser.
Na primeira esfera de
luz encontramos árvores e flores, como as que nascem nos jardins da
Terra; flores e árvores mais belas, que não emurchecem, que não
morrem, que formam parte integrante de nossa vida.
Em torno de nós há pássaros e animais. Conservam-se ainda amigos do
homem, de quem estão mais próximos. São mais inteligentes e já não
sofrem os temores nem padecem as crueldades que experimentam no
Planeta.
Encontramos casas e
jardins, porém, de substância, cor e atmosfera mais de acordo
conosco. A água borbulha com sonoridades musicais; há maior harmonia
de cores. Tudo é mais radiante, mais alegre, mais interessantemente
complexo, e, não obstante estar a nossa atividade multiplicada, é a
nossa vida mais remansosa.
Desaparecem as
diferenças de idade. Não há velhos na Esfera de Luz. Ali só habitam
os fortes e de bela aparência.
Espíritos de mais alta
esfera podem descer à esfera inferior; podem, mesmo, ser enviados em
missão à Terra. Antes, porém, de nos alcançarem, têm que se habituar
à luz mais obscura e ao ar mais pesado das esferas inferiores.
Necessitam de
adaptação, a fim de se amoldarem à densa e turva atmosfera na qual
está envolvido o nosso mundo.
É esta razão por que
as vozes dos Espíritos nos alcançam tantas vezes, em pequenos
fragmentos, de sorte que a nossa inteligência pode dificilmente
reuni-los. É esta a razão por que, tão de espaço, são ouvidas as
palavras e percebidas a presença dos que estão ansiosos por se
comunicarem com os amigos e confortá-los.
Tão insignificante é a
transformação a que chamamos morte, conta-nos a narrativa, que
muitos não se apercebem dela.
Precisam os mortos se
lhes diga que estão em outro mundo, no mundo em que todos se hão de
reunir”.
O leitor acostumado às
obras espíritas, particularmente as psicografadas por Francisco
Cândido Xavier, ditadas pelo Espírito André Luiz, especialmente o
livro “Nosso Lar”, poderão comparar e ver as identidades e
semelhanças notáveis entre uma e outra exposição. Contudo, a obra de
George Vale Owen foi escrita antes de 1920, enquanto “Nosso Lar” foi
escrito no inicio da década de 1940.
Apenas como lembrança
é bom registrar que existem regiões espirituais infinitamente mais
ditosas e outras extremamente inferiores àquela acima descrita.
As reações contrárias
vindas dos confrades do médium psicógrafo não tardaram. George
perdeu a administração de seu curato e, como resultado, ficou sem
sua fonte de renda, passando daí por diante a viver com enormes
dificuldades financeiras.
Todavia, o trabalho de
George já tinha se tornado conhecido e ele não ficou desamparado na
divulgação de sua obra.
Em 1920, o nobre
irlandês J. Alfred Hamsworth (1865 – 1922), conhecido como Lord
Northcliffe, detentor de fortuna e prestígio, interessou-se por seu
trabalho e passou a publicá-lo no “The Weekly Despatch”.
Lord Northcliffe era
editor do jornal “The Times”, de Londres, e estava sempre disposto a
publicar a verdade. Seu lema era “Explique, simplifique,
clarifique”.
Quando o Lord
encontrou George ofereceu-lhe mil libras como pagamento pela
autorização da publicação de seus textos, porém o médium,
demonstrando nobreza de caráter, apesar de sua difícil situação
financeira, aceitou apenas que fosse publicado o trabalho dos
Espíritos, não recebendo nenhuma vantagem pessoal.
Pela publicação destes
textos e por razoes ligadas às suas próprias opiniões, Northcliffe
foi marginalizado por sua classe social, não obstante, manteve-se
firme em seu propósito de divulgar o trabalho que tanto interesse
despertava.
“Não tive a
oportunidade de ler toda “A vida Além do Véu”, porém, entre as
passagens que perlustrei, muitas há de grande beleza”.
“Parece-me que a
personalidade do Reverendo G. Vale Owen é matéria de suma
importância, devendo ser considerada de par com os notáveis
documentos que nos apresenta”.
“Durante a ligeira
conferencia que entretivemos, percebi que estava em presença de um
homem de sinceridade e convicção. Ele não se julgava dotado de
qualidades psíquicas especiais. Mostrou-se pouco ambicioso de
publicidade e declinou dos grandes emolumentos que facilmente lhe
adviriam em conseqüência do enorme interesse que estes escritos vão
despertar no público de todo o Planeta”. Escreveu Northcliffe a
respeito de sua relação com o médium.
A publicação das obras
de George no “The Weekly Despatch” levou o periódico a atingir
marcas vultosas de vendagem. Na Inglaterra seu trabalho passou a ser
reconhecido como as “Escrituras de Owen”.
Com cinqüenta e três
anos George rumou para os Estados Unidos a fim de divulgar, por meio
de palestras, seu trabalho e suas crenças. Depois retornou para a
Inglaterra e lá continuou realizando conferências e apresentando um
mundo novo para os que o ouviram.
Como todas suas
despesas eram cobertas com recursos próprios, George esgotou
rapidamente seus recursos. Em seu socorro Arthur Conan Doyle
realizou uma coleta que ficou conhecida como “Caixa de Vale Owen”;
todavia, em respeito aos seus princípios, o médium não aceitou o
dinheiro. Arthur manteve suas relações com o amigo, inclusive
escrevendo os prólogos de seus livros.
Depois de dezoito anos
de trabalho em defesa da verdade, George adoeceu e desencarnou em
1931.
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